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Nem depois das urnas temos paz

há 2 horas
2 min de leitura

O Brasil acaba de concluir mais uma eleição presidencial democrática, com ampla participação popular, resultado reconhecido pelas instituições e um vencedor legitimado pelas urnas. Deveria ser o momento de celebrar, lamentar, refletir e seguir adiante. Mas parece que perdemos até o direito de viver o dia seguinte a uma eleição. A disputa continua, as suspeitas se multiplicam e a política brasileira permanece em estado de guerra.


A decisão de Alexandre de Moraes de determinar a entrega dos passaportes de Flávio Bolsonaro, poucas horas depois de sua derrota, acrescentou mais um capítulo a esse ambiente de tensão. Estamos falando de alguém que, até a noite anterior, disputava a Presidência da República com quase metade dos votos válidos. Isso não o coloca acima da lei, evidentemente. A Justiça não pode deixar de agir quando existem fundamentos e riscos concretos, independentemente do calendário político. Entretanto, a necessidade, a proporcionalidade e a transparência de suas decisões tornam-se ainda mais importantes em circunstâncias sensíveis. Especialmente quando o sigilo judicial dificulta a compreensão pública.


Do outro lado, a reação à derrota também merece reflexão. Flávio questionou o resultado das urnas e anunciou que pediria a anulação das eleições. Posteriormente, sua campanha passou a concentrar as contestações em alegações de abuso de poder, sem insistir na anulação. Recorrer à Justiça é um direito legítimo.


Questionamentos dessa natureza exigem provas e responsabilidade, sobretudo quando milhões de brasileiros acabam de expressar sua vontade. A democracia precisa garantir o direito de contestar sem transformar cada contestação em uma nova crise de confiança.


As teorias da conspiração encontram terreno fértil quando a dúvida se torna permanente. E a dúvida não nasce apenas da desinformação deliberada. Também prospera na dificuldade de compreender decisões, na percepção de incoerências e na incapacidade das instituições e das lideranças de oferecer explicações convincentes. O Estado de Direito precisa ser exercido e demonstrado. A confiança pública não se impõe por autoridade. Conquista-se pela consistência dos atos.


Que país é esse em que nem vencedores conseguem comemorar, nem derrotados encontram espaço para elaborar suas frustrações? A alternância de poder, a independência da Justiça e o respeito à vontade popular deveriam ser valores compartilhados, independentemente de quem ocupe a Presidência. O Brasil precisa reaprender que perder uma eleição não significa perder direitos, assim como vencê-la não significa adquirir privilégios.


Uma das maiores demonstrações de maturidade democrática é permitir que, depois de uma eleição, a vida continue. Com fiscalização, oposição, justiça e divergências, naturalmente. Mas também com algum sossego. Porque um país que transforma cada dia seguinte em uma nova guerra corre o risco de nunca descobrir o que significa viver em paz com a própria democracia.


Imagem: Unsplash

 
 
 

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