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Exclusivo: O Brasil como contrapeso

há 4 horas
2 min de leitura

A vitória de Lula nas eleições presidenciais brasileiras talvez tenha um significado maior do que a própria continuidade de seu governo. Em um mundo marcado pelo avanço de movimentos políticos cada vez mais radicais, o resultado das urnas pode representar um importante contrapeso na geopolítica latino-americana. E essa constatação independe de simpatias partidárias.

A América Latina atravessa um período de profundas transformações políticas. O crescimento de lideranças nacionalistas, a aproximação de governos com movimentos populistas e a crescente hostilidade entre adversários ideológicos vêm modificando o ambiente político regional. O fenômeno não se limita ao continente. Dos Estados Unidos à Europa, a radicalização do discurso encontra terreno fértil na insatisfação social, na insegurança econômica e na desconfiança das instituições.

O problema não está na alternância entre esquerda e direita, indispensável à democracia. Está na transformação do adversário em inimigo, na relativização das regras democráticas e na ideia de que a força pode substituir o diálogo. A história oferece exemplos suficientes dos riscos dessa combinação, independentemente da orientação ideológica de quem ocupa o poder.

Nesse cenário, o Brasil tem uma responsabilidade que ultrapassa suas fronteiras. Sua dimensão econômica, sua influência diplomática e sua relevância ambiental conferem ao país uma capacidade singular de participar da construção de consensos. A reeleição de Lula preserva uma voz importante em defesa do multilateralismo, da negociação internacional e da autonomia política da região.

Isso não significa ignorar os erros do governo, suas contradições ou a necessidade de cobrar resultados concretos. Tampouco significa atribuir à esquerda o monopólio da democracia ou da sensatez. Existem lideranças conservadoras profundamente comprometidas com as instituições, assim como existem experiências autoritárias que se apresentam sob bandeiras progressistas. A diferença fundamental não está na ideologia, mas na maneira como o poder é exercido e limitado.

O resultado brasileiro também merece ser observado com prudência. Quase metade dos eleitores escolheu outro caminho. São milhões de brasileiros cujas preocupações, expectativas e divergências precisam ser respeitadas. Uma democracia não se fortalece quando seus vencedores passam a considerar os derrotados um problema a ser eliminado do debate público.

A contribuição mais relevante dessa eleição é justamente a possibilidade de demonstrar que um país pode exercer influência internacional sem aderir à lógica permanente do confronto. Que soberania não precisa significar isolamento, que firmeza diplomática não exige agressividade e que divergências políticas não precisam comprometer a convivência entre nações.

Seria ingenuidade imaginar que uma eleição brasileira pudesse conter, sozinha, a radicalização política mundial. Mas seria igualmente equivocado desprezar o peso de um país como o Brasil na construção de alternativas a esse movimento.

A vitória de Lula não representa a salvação de um continente. Pode, entretanto, representar uma oportunidade para preservar algum equilíbrio em uma região cada vez mais tensionada por disputas ideológicas e interesses geopolíticos.

Em tempos de tanta gente disposta a demonstrar força, o verdadeiro sinal de liderança está na capacidade de construir entendimento. E o Brasil, independentemente de quem o governe, deveria reconhecer nessa capacidade uma de suas maiores responsabilidades.

 


 
 
 

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