Estamos ensinando menos em um mundo que precisa aprender mais
Os resultados do PISA 2025 deveriam nos fazer parar por alguns minutos. A avaliação, aplicada a mais de 760 mil estudantes de 15 anos em 91 países mostrou uma queda expressiva no desempenho educacional dos países da OCDE. Entre 2015 e 2025, foram menos 28 pontos em leitura e 22 em matemática. Um em cada cinco jovens apresenta baixo desempenho simultaneamente em leitura, matemática e ciências.
No Brasil, algumas matérias destacaram redução na distância com os países mais desenvolvidos. É verdade. Mas a leitura está enviesada. Aproximar-se de quem está à frente nem sempre significa avançar. Às vezes significa que quem estava à frente recuou. E foi, em boa medida, o que aconteceu.
O que preocupa é que essa queda não começou na pandemia. Os resultados já vinham se deteriorando antes da Covid. Este PISA, portanto, não inaugura o problema. Ele confirma uma trajetória e acende o alerta: O que está acontecendo com a aprendizagem?
Durante milhares de anos, aprender exigiu tempo. Ler uma página. Voltar algumas linhas. Não entender. Perguntar. Tentar novamente. Errar uma conta. Refazer. Permanecer diante de um problema até encontrar um caminho.
Então vieram os smartphones, as redes sociais e uma nova economia de atenção, baseada em velocidade e estímulo permanente. O problema não é a tecnologia em si. É quando ela substitui concentração, esforço e pensamento.
Agora temos a inteligência artificial. E ela eleva a discussão a outro nível.
Estamos formando a primeira geração da história que poderá chegar à vida adulta dispondo de máquinas capazes de escrever, calcular, resumir, pesquisar, traduzir, programar, organizar argumentos e responder praticamente qualquer pergunta em poucos segundos. Isso é extraordinário.
Mas também cria uma responsabilidade que ainda não dimensionamos.
A IA pode ampliar a aprendizagem quando ajuda a explicar, questionar e aprofundar. Pode empobrecê-la quando faz pelo estudante aquilo que ele deveria aprender a fazer. É uma diferença decisiva.
A educação não deve acumular respostas, mas aprender a formular perguntas, interpretar contextos, identificar contradições, duvidar, argumentar e construir pensamento próprio.
E há outras variáveis nessa equação: a qualidade da escola, a formação e valorização dos professores, o ambiente familiar, as desigualdades sociais, a saúde emocional dos jovens e o valor que cada sociedade atribui ao conhecimento. Tudo isso está em jogo.
O futuro não será menos exigente intelectualmente. Será muito mais. E é por isso que os resultados do PISA não deveriam ser apenas uma notícia de setembro, mas um alerta sobre o presente que estamos construindo.
A ficção científica imaginou a Cyberdyne Systems e sua Skynet, com máquinas que se tornariam mais inteligentes que seus criadores.
Ainda que não cheguemos a um mundo em que máquinas pensem por nós, corremos o risco de chegar a um mundo em que nós tenhamos desaprendido a pensar.

Imagem: Envato Elements




























































Comentários