O batom na cueca configura pouca coisa
No Brasil, parece que nem o batom na cueca é suficiente. Temos imagens, gravações, mensagens, documentos, transferências bancárias, quebras de sigilo e operações policiais que apreendem computadores, celulares e contratos. Ainda assim, frequentemente terminamos no mesmo lugar: indignação por alguns dias, uma enxurrada de opiniões nas redes sociais e, depois, é vida que segue.
Os casos recentes são eloquentes. A investigação do Banco Master reúne mensagens, áudios, registros de chamadas, contratos, comprovantes de transferências e planilhas de pagamentos. A Operação Sem Desconto já levou a dezenas de indiciamentos no primeiro inquérito sobre descontos indevidos em aposentadorias do INSS. E agora uma imagem mostra o Ministro Alexandre de Moraes desembarcando de uma aeronave pertencente a Daniel Vorcaro, fato que contradiz sua declaração anterior sobre o uso de aeronaves ligadas ao banqueiro. O episódio recebeu explicações distintas das partes envolvidas.
Há ainda investigações envolvendo suspeitas de tráfico de influência e corrupção, como a que levou a buscas em endereços do deputado Cezinha de Madureira, a partir de suspeitas de que ele negociaria acesso a ministros do STF. E a Polícia Federal abriu investigação para apurar o fornecimento indevido de informações sigilosas em troca de vantagens financeiras. Não estou dizendo que investigação é condenação. Não é. Justiça exige contraditório, defesa e prova validada. Mas também não podemos fingir que nada aconteceu enquanto os fatos são apurados.
O que me incomoda é outra coisa: a nossa tolerância. O escândalo vira conteúdo. A denúncia vira munição política. A gravação é compartilhada por quem já concordava com ela e desacreditada por quem não concorda. A mesma pessoa que exige punição exemplar quando o suspeito é seu adversário encontra explicações sofisticadas quando o investigado está do seu lado.
Seguramente temos aqui um dos maiores problemas institucionais brasileiros. Não faltam leis, órgãos de controle, imprensa investigativa, Polícia Federal, Ministério Público ou tribunais. Falta transformar a revelação dos fatos em uma cultura consistente de responsabilização. Uma democracia saudável não pode funcionar pela lógica de que corrupção é grave apenas quando praticada pelo outro.
No fim, o problema não é o batom na cueca. É o fato de que, no Brasil, até quando aparece, ainda conseguimos discutir a cor do batom, a marca da cueca e quem foi fotografado. Enquanto isso, esquecemos a pergunta essencial: quais consequências concretas devem existir quando fatos comprovados revelam que alguém violou a confiança pública?

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