O cordeiro dos outros
Há uma história do Antigo Testamento que atravessou séculos e continua a dizer muito sobre a natureza humana. Não fala de eleições, partidos ou disputas ideológicas. Fala de poder, privilégios e de uma dificuldade bastante antiga. A de reconhecer a injustiça quando somos nós quem nos beneficiamos dela.
O profeta Natã procurou o rei Davi para lhe contar uma história. Havia, em determinada cidade, dois homens. Um era rico, dono de muitos rebanhos. O outro era pobre e possuía apenas uma pequena ovelha, que criara junto de casa. O animal comia de seu pão, bebia de seu copo e dormia em seus braços. Era quase parte da família. Um dia, o homem rico recebeu uma visita. Em vez de sacrificar um de seus numerosos animais para servir ao convidado, tomou a única ovelha do vizinho pobre.
Ao ouvir o relato, Davi se indignou. Considerou intolerável a atitude daquele homem e declarou que ele merecia ser punido. Foi então que Natã pronunciou uma frase que atravessaria os tempos: “Tu és esse homem”. O rei, que julgara com tanta clareza a conduta alheia, precisou confrontar a própria responsabilidade. A história está no segundo livro de Samuel, capítulo 12.
A força dessa passagem está na simplicidade do conflito. O homem rico não precisava da ovelha do vizinho. Tinha muito mais do que poderia consumir. O pobre, por sua vez, tinha pouco, e aquele pouco representava muito. A desigualdade não estava apenas na quantidade de bens que cada um possuía, mas na possibilidade de um deles dispor daquilo que pertencia ao outro sem considerar suas necessidades, seus direitos ou sua dignidade.
As sociedades mudaram, as instituições se transformaram e as formas de exercer o poder se tornaram mais complexas. A velha questão, entretanto, permanece. Uma decisão pode parecer razoável para quem a toma e produzir consequências devastadoras para quem precisa conviver com ela. É fácil defender sacrifícios quando serão feitos pelos outros, exigir paciência de quem já esperou demais ou falar em mérito sem considerar as condições de partida. Também é simples enxergar privilégios alheios e encontrar justificativas para os próprios.
Isso não significa que toda desigualdade seja injusta, que toda política pública seja eficaz ou que a proteção aos mais vulneráveis dispense responsabilidade fiscal, trabalho e geração de riqueza. Significa reconhecer que a qualidade de uma sociedade também se mede pela maneira como trata aqueles que dispõem de menos recursos, menos oportunidades e menor capacidade de fazer sua voz ser ouvida. O debate sobre os caminhos para alcançar esse objetivo é legítimo e necessário. A indiferença diante de quem fica pelo caminho não deveria ser.
Davi precisou de um profeta para perceber que a indignação moral que demonstrara diante da história era também uma cobrança dirigida a ele. Talvez essa seja a parte mais difícil da lição. Sair da posição confortável de juiz e aceitar que nossos valores também precisam ser examinados pelas consequências de nossas escolhas.
Ao fim e ao cabo, a pergunta que a história nos deixa não é só quem merece ser condenado por tomar a ovelha do vizinho. É se temos a coragem de reconhecer de quem é o cordeiro, quem o tomou e quem pagará o preço dessa decisão.

Imagem: GPT




























































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