A longevidade depende de quem ainda trabalha
A notícia parece, à primeira vista, uma celebração da longevidade. E é. O Japão acaba de ultrapassar uma marca que, até pouco tempo atrás, pareceria improvável: 107.677 pessoas com 100 anos ou mais, o maior número desde o início dos registros, em 1963. São quase 8 mil centenários a mais do que no ano anterior. 88% são mulheres.
Mas existe uma segunda leitura, menos óbvia e talvez mais importante para o futuro das sociedades. O Japão está mostrando que viver mais não é apenas uma questão de saúde. É uma questão econômica.
A expectativa de vida japonesa chegou, em 2025, a 87,33 anos para mulheres e 81,35 anos para homens. Ao mesmo tempo, a fecundidade caiu para 1,14 filho por mulher, um dos níveis mais baixos da história. O resultado é uma combinação poderosa: mais pessoas vivendo muito mais tempo e menos pessoas entrando na população economicamente ativa.
A projeção ajuda a dimensionar o problema. O Japão, que tinha cerca de 126 milhões de habitantes em 2020, poderá chegar a aproximadamente 87 milhões em 2070, enquanto a proporção de pessoas com 65 anos ou mais poderá alcançar cerca de 40%.
É aí que a discussão sobre aposentadoria precisa mudar.
Durante décadas, construímos sistemas sociais baseados em uma premissa relativamente simples: as pessoas trabalham durante uma parte da vida, aposentam-se e passam a ser sustentadas, em alguma medida, pelas contribuições de quem está trabalhando.
Mas o que acontece quando a terceira etapa da vida passa a durar 25, 30 ou até 40 anos?
A resposta não pode ser apenas aumentar a capacidade da seguridade social. Precisamos também aumentar a capacidade produtiva das pessoas mais velhas. E isso significa repensar a própria ideia de aposentadoria.
O Japão já oferece uma pista. Em 2024, 74,3% das pessoas entre 60 e 64 anos e 53,6% entre 65 e 69 anos estavam trabalhando. Entre os maiores de 70 anos, a taxa chegou a 18,6%. Não se trata de obrigar ninguém a trabalhar até determinada idade. Trata-se de criar condições para que quem quiser e puder continuar trabalhando tenha espaço para isso. E aqui existe uma diferença fundamental.
Uma sociedade longeva não pode tratar seus cidadãos mais velhos apenas como beneficiários de políticas públicas. Precisa reconhecê-los também como produtores, consumidores, empreendedores, profissionais, mentores e transmissores de conhecimento.
Isso exige mudar o desenho das empresas. Carreiras precisarão ser menos lineares. Jornada, função, remuneração e responsabilidade terão de admitir mais flexibilidade. A experiência acumulada precisará ser combinada com atualização permanente.
Também exige enfrentar um preconceito ainda muito presente: o de associar idade à perda automática de capacidade.
A discussão, portanto, não deveria ser simplesmente sobre quando alguém vai se aposentar, mas como alguém continuará participando da economia depois dos 60, 70 ou 80 anos, se desejar e tiver condições para isso.
Notadamente existe um risco econômico importante em retirar pessoas precocemente do mercado de trabalho justamente quando a sociedade mais precisa de sua contribuição.
No mundo que está envelhecendo, longevidade sem participação econômica pode se transformar em pressão fiscal. Longevidade acompanhada de trabalho, consumo, empreendedorismo, conhecimento e contribuição social pode se transformar em uma enorme oportunidade.
O Japão ultrapassou os 107 mil centenários e isso nos leva a extrapolar a questão do como financiar uma sociedade que viverá mais. Devemos passar a questionar como criar uma economia em que viver mais também signifique continuar contribuindo por mais tempo.

Imagem: CkStockphoto | Envato




























































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