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O assédio eleitoral e a mentalidade medieval

há 2 horas
2 min de leitura

É impressionante como algumas pessoas conseguem chegar ao século XXI carregando uma mentalidade que parece anterior à própria democracia. O assédio eleitoral, especialmente quando praticado ou incentivado por representantes eleitos, revela uma compreensão grotesca das relações humanas e do exercício do poder. Para alguns, a liberdade de escolha só merece respeito quando produz o resultado desejado.


As eleições terminaram, mas a intolerância continua. A deputada Índia Armelau (PL-RJ) sugeriu que empresários questionassem a permanência de funcionários que apoiaram Lula. No Paraná, Jéssica Ramos Moreno (PL) incentivou demissões de trabalhadores petistas, enquanto Guilherme Kilter (Novo-PR) foi alvo de uma recomendação do Ministério Público do Trabalho por manifestações semelhantes. Em Macaé, a procuradora municipal Renata Pimentel Ribeiro declarou que petistas não trabalhariam para ela e aconselhou empresários a não contratar determinados grupos, incluindo nordestinos e mineiros. Suas declarações motivaram uma investigação policial e um posterior pedido de desculpas.


Mas seria um erro atribuir essa mentalidade exclusivamente à direita. Em 2022, o então vereador petista Luiz Carlos Suíca, de Salvador, foi alvo de uma representação após declarações intimidatórias contra trabalhadores bolsonaristas. Um episódio que reforça a necessidade de aplicar os mesmos princípios democráticos a todas as correntes políticas, independentemente de suas convicções.


O mais desconcertante é perceber que estamos falando de pessoas que chegaram ao poder justamente pela liberdade do voto ou que ocupam funções públicas sustentadas pelas instituições democráticas. Beneficiam-se de direitos que, em determinadas circunstâncias, parecem pouco dispostas a reconhecer nos demais. É uma espécie de coronelismo digital, modernizado pelas redes sociais, mas que preserva velhas práticas de imposição e submissão.


A democracia não exige concordância, tampouco simpatia. Exige reconhecer no outro a legitimidade dos mesmos direitos que reivindicamos para nós. Ameaçar empregos, discriminar cidadãos por sua origem ou intimidá-los por suas convicções políticas compromete a convivência democrática. E a gravidade dessas atitudes não pode variar conforme o partido de quem as pratica.


A humanidade levou séculos para substituir a imposição pela escolha, a submissão pela cidadania e o arbítrio pelo Estado de Direito. É perturbador constatar que ainda existam representantes públicos incapazes de compreender essa evolução.


O voto não cria súditos, nem transforma vencedores em proprietários da consciência alheia. Quem exige liberdade para si precisa aprender a respeitá-la nos outros.



Imagem: AfricaImages

 
 
 

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