Não quero escrever para algoritmos
Escrevo porque escrever me faz pensar. Parece simples, mas talvez seja uma das coisas mais importantes que aprendi ao longo dos anos. Quando começo um texto, quase nunca sei exatamente onde vou chegar. Tenho uma ideia, uma inquietação, alguma coisa que me incomodou ou despertou minha atenção.
E, à medida que as palavras aparecem, sou obrigado a organizar o pensamento, buscar informações, considerar outros pontos de vista e, principalmente, desconfiar das minhas próprias certezas. Escrever é uma forma de pensar enquanto faço. E, muitas vezes, de pensar melhor porque estou escrevendo.
As reações variam bastante depois de prontos. Há textos que passam de uma centena de interações. Outros não chegam a dez. Isso nunca deixou de acontecer e, sinceramente, não me surpreende. Afinal, meu primeiro juiz não é quem lê. É um algoritmo.
Ele decide, a partir de critérios que nem sempre conhecemos, quem verá aquilo que escrevi, por quanto tempo e em que lugar aparecerá. Mas eu não escrevo para ele. Se escrevesse, provavelmente passaria mais tempo tentando descobrir o que funciona para a plataforma do que procurando entender o que penso sobre as coisas.
Escrevo, antes de tudo, para não deixar o pensamento enferrujar. Para continuar informado. Para olhar uma questão por mais de um ângulo. Para admitir que uma convicção de hoje pode merecer revisão amanhã. Já mudei de ideia muitas vezes na vida e espero continuar mudando quando os fatos, a experiência ou um argumento melhor me mostrarem que devo fazê-lo. Não vejo nisso incoerência.
Vejo disposição para aprender. O que procuro preservar é outra coisa: equilíbrio, moderação e ponderação. Posso não ter razão. Aliás, parto muitas vezes dessa premissa. Ter opinião não deveria significar acreditar que somos donos da verdade.
Também escrevo pensando em quem está do outro lado. Não tenho a pretensão de convencer ninguém. Meu desejo é provocar uma pausa. Talvez uma pergunta. Quem sabe uma revisão de alguma certeza que parecia definitiva. Vivemos cercados por ambientes digitais que nos oferecem, com enorme eficiência, aquilo com que já concordamos. Formam-se nichos, bolhas, grupos que compartilham referências, indignações e certezas, enquanto o outro lado vai se tornando cada vez mais distante e, às vezes, até incompreensível.
Não acredito que escrever resolva isso. Seria ingenuidade. Mas acredito que compartilhar ideias com respeito pode ajudar a criar pequenos espaços de encontro onde ainda seja possível discordar sem transformar o outro em inimigo.
No final, continuo acreditando que participar da vida também é assumir alguma responsabilidade pelo lugar que ajudamos a construir. Quero viver em um país melhor e em uma sociedade melhor. Não tenho a pretensão de mudar o mundo com um texto. Seria desproporcional acreditar nisso. Mas talvez uma ideia provoque outra. Uma reflexão encontre alguém disposto a reconsiderar uma certeza. Uma discordância gere uma conversa em vez de um ataque. E uma conversa, quem sabe, ajude alguém a pensar de maneira um pouco diferente. Se isso acontecer, mesmo que o algoritmo não registre, o texto já terá cumprido sua função.

Imagem: Wirestock




























































Comentários