A plataforma não controla tudo
Poucas situações explicam tão bem a comunicação contemporânea quanto o que aconteceu nas últimas horas com o Revelando, projeto do podcast Calma Urgente, e o episódio “Grandes Igrejas, Master Negócios”, apresentado por Fábio Porchat.
O vídeo foi publicado na segunda-feira, 21 de setembro. Em menos de 24 horas, chegou ao primeiro lugar do ranking Hype do YouTube. No Instagram, os cortes do episódio já haviam alcançado cerca de 6 milhões de visualizações, além de milhares de compartilhamentos e comentários.
O conteúdo reconstrói, a partir de informações já publicadas e de investigações em andamento, relações envolvendo o Banco Master, a Igreja Batista da Lagoinha e personagens da política brasileira.
Na manhã desta quarta-feira, aconteceu algo que transformou a própria distribuição do conteúdo em notícia. A Meta derrubou o perfil do Revelando no Instagram. Segundo os responsáveis pelo projeto, a plataforma informou apenas que o conteúdo “não segue os padrões” do Instagram, sem especificar qual regra teria sido violada.
Horas depois, a conta voltou ao ar. A Meta disse ter feito uma revisão interna, restaurado o perfil e pediu desculpas pelo transtorno. Não explicou, porém, qual havia sido o problema que levou à retirada inicial.
E aí está a parte mais interessante do episódio.
Enquanto o perfil estava fora do ar, usuários começaram a baixar o vídeo que continuava disponível no YouTube e passaram a republicá-lo em seus próprios perfis no Instagram. O conteúdo, retirado de um perfil, começava a reaparecer em muitos outros, no próprio Instagram e também em aplicativos de mensagens.
É uma mudança importante na lógica da comunicação.
Durante décadas, quem controlava o canal, controlava boa parte da distribuição. Hoje, uma plataforma pode retirar um conteúdo de um perfil, mas não necessariamente consegue retirar o conteúdo da sociedade.
A rede deixou de ser apenas o lugar onde as pessoas recebem informação. Ela também passou a ser o lugar onde as pessoas preservam, replicam, contestam e redistribuem informação.
E isso cria uma situação curiosa para as próprias plataformas. O usuário depende delas para alcançar audiência, mas a plataforma também depende do usuário para existir. Quando uma comunidade decide replicar alguma coisa, a distribuição deixa de estar inteiramente nas mãos do algoritmo.
Foi exatamente isso que transformou a retirada do perfil em um segundo capítulo da história.
Porchat chamou a ação de “censura” e pediu que os seguidores compartilhassem o conteúdo. É importante, entretanto, fazer uma distinção. Juridicamente, censura e moderação privada de conteúdo não são necessariamente a mesma coisa.
O que está objetivamente documentado é que uma empresa privada retirou uma conta do ar, alegou violação de suas regras, não especificou qual regra havia sido infringida e depois restaurou a conta. A caracterização como censura é uma interpretação feita pelo próprio Porchat e por outros participantes do debate.
É justamente aí que entra uma discussão muito maior do que o vídeo.
Quem define as regras do espaço público digital? Quem fiscaliza aquele que fiscaliza? Que transparência uma plataforma deve oferecer quando retira um conteúdo? Que possibilidade de recurso deve existir? E até onde uma empresa privada pode decidir o que milhões de pessoas podem ou não acessar?
E essa discussão não é apenas teórica. O Brasil está justamente definindo os limites desse novo ambiente digital.
Em junho deste ano, o STF aperfeiçoou sua decisão sobre o artigo 19 do Marco Civil da Internet e estabeleceu novos parâmetros para a responsabilização das plataformas por conteúdos de terceiros. Entre outras medidas, a Corte definiu um chamado dever de cuidado e determinou que as plataformas implementassem mudanças estruturais em 60 dias.
A decisão também estabeleceu situações específicas em que os provedores podem ser responsabilizados por falhas sistêmicas na prevenção ou remoção de determinados conteúdos ilícitos.
Mas há uma questão que merece ainda mais atenção para quem trabalha com Comunicação.
Regular plataformas não significa, necessariamente, dizer às plataformas o que elas devem publicar. Significa discutir regras, responsabilidades, transparência, direito de contestação e os limites de quem exerce um poder privado gigantesco sobre a circulação da informação.
O episódio do Revelando mostra uma coisa que as empresas talvez precisem compreender melhor: hoje, o controle da distribuição não está mais concentrado em um único lugar.
A Meta retirou um perfil. Os usuários fizeram cópias. O YouTube continuou hospedando o conteúdo. Outras redes repercutiram a história. A imprensa noticiou a retirada. O assunto ganhou uma nova camada de interesse justamente por causa da tentativa de interromper sua circulação.
A comunicação tem dessas ironias. Às vezes, a tentativa de controlar a mensagem acaba produzindo uma mensagem ainda maior.
O episódio acaba de se transformar em um case de Comunicação contemporânea.
A audiência não é mais apenas audiência. Ela também pode ser canal, arquivo, distribuidora e, em determinadas circunstâncias, uma espécie de rede de proteção da informação.
Para marcas, empresas, governos e plataformas, isso muda bastante a conversa.

Imagem: Revelando




























































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