A ficção, enfim, entrou em casa
- Luis Alcubierre

- 17 de nov.
- 3 min de leitura
R2D2, C3PO, Rosie, Wall-E, HAL 9000, T-800. Durante décadas, esses personagens foram apenas projeções do que um dia poderia existir. Hoje percebo que eles foram, na verdade, exercícios preparatórios. Ensaios emocionais para algo que já está acontecendo. Pela primeira vez, a ficção não está mais distante da realidade. Ela está prestes a entrar nas nossas casas, nas fábricas, nos escritórios. E nas ruas.
O curioso é que os primeiros robôs entre nós não tinham rosto humano. Eram aspiradores inteligentes, braços metálicos que montavam veículos dentro de grades de segurança. Os dispositivos discretos que se escondiam na rotina. Só agora entendemos que aquilo era apenas o prólogo da história.
Vivemos a chegada dos humanoides. E isso muda tudo.
Os norte-americanos transformaram seus robôs em vitrines de alta performance. A Boston Dynamics virou símbolo de uma engenharia que impressiona por movimentos acrobáticos e vídeos que viralizam. Os russos tentaram protagonismo com o Aidol na semana passada, mas o projeto não resistiu à queda em pleno lançamento. Já os chineses seguiram outro caminho. Em vez de espetáculo, entregaram escala. O Walker S1 e o S2 da UBTECH Robotics já estão em operação. A XPENG apresentou o Iron com aplicação comercial real. Por outro lado, a Unitree Robotics mostrou força, mas também riscos ao protagonizar incidentes em testes. E, no campo dos robôs animais, o Cheetah, do Massachusetts Institute of Technology, continua a mudar parâmetros de velocidade e estabilidade.
A pergunta essencial deixou de ser tecnológica. Tornou-se social.
Estamos preparados para dividir espaço físico com máquinas que andam, observam, carregam e interagem? Em pouco tempo, robôs estarão nas casas, acompanhando idosos, realizando tarefas, participando de rotinas. Também estarão nas ruas, em lojas, no transporte. Teremos de definir regras. Quem responde por danos? Como tratamos a relação entre máquina e usuário? Que direitos e deveres existirão? O que precisa ser regulado? A lista cresce na mesma velocidade do avanço técnico.
E, nesse ponto, entramos em um território ainda mal mapeado. Não basta criarmos normas de segurança e padrões de uso. Precisamos de marcos éticos que orientem o desenvolvimento e a convivência. Se uma máquina toma decisões, ainda que simples, precisamos garantir que seus critérios não reforcem desigualdades ou vieses. Precisamos saber como os dados serão tratados, quem os acessará, o que poderá ser monitorado. E precisamos de políticas públicas capazes de equilibrar inovação, proteção e responsabilidade. Não há futuro sustentável sem esse tripé.
O debate regulatório, por sua vez, não pode cair na armadilha de ser apenas reativo. É estratégico que governos, empresas e sociedade civil construam juntos diretrizes que antecipem impactos, que ofereçam responsabilidades e que garantam transparência. Robôs que circulam em ambientes sociais não podem ser tratados como eletrodomésticos evoluídos. Eles exigem governança. Exigem clareza sobre limites. Exigem que nossas escolhas reflitam os valores que queremos preservar. A tecnologia não substitui essa conversa. Ela a intensifica.
Mas o ponto decisivo é outro. O que fazemos com a humanidade diante disso?
Toda grande transformação tecnológica mexe em comportamentos. Os celulares já provaram isso. Hoje, os robôs podem nos levar a uma conversa ainda mais profunda. Se eles assumirem tarefas repetitivas, nos devolverão aquilo que só um ser humano é capaz de oferecer. A atenção real, a capacidade de escutar e de construir vínculos. O interesse legítimo pelo outro.
Talvez, com inteligência, possamos usar essas máquinas para recuperar valores que se diluíram, como o convívio comunitário, respeito, mediação de conflitos, encantamento pelo aprendizado. Nada impede que os robôs ajudem a reorganizar a vida social em torno de princípios humanos, e não o contrário.
O futuro deixou de ser tema de filme. Ele está na porta. Agora, com sensores, motores e númer o de série. A questão é se vamos apenas observá-lo ou se vamos liderar a construção ética desse novo capítulo. Porque a tecnologia avança, mas a direção continua sendo escolha nossa.

Imagem: Loren Elliott/The New York Times





























































Comentários