Conteúdo em excesso. Para quem, afinal, estamos falando?
- Luis Alcubierre

- há 2 dias
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Nunca se produziu tanto conteúdo, nunca se publicou tanto, nunca se falou tanto e, paradoxalmente, nunca se ouviu tão pouco. Portais de notícia atualizam manchetes em ritmo industrial. Redes sociais operam em fluxo contínuo, quase automático. A pergunta que começa a incomodar profissionais conscientes não é mais como produzir, mas por que produzir e, principalmente, para quem.
É legítimo, em algum momento, olhar para a própria trajetória e questionar: faço parte de uma engrenagem que alimenta quem? As big techs, com seus algoritmos famintos por retenção? O ego, embalado por métricas que confundem visibilidade com relevância? Ou pessoas reais, que buscam contexto, reflexão e algum tipo de orientação em meio ao ruído?
Esse é o ponto de tensão do nosso tempo.
O contraponto costuma vir rápido. “Existe uma crise de criatividade”?. Discordo. Não existe crise quando há vontade genuína de comunicar. Não existe crise quando o ato de escrever, gravar ou publicar nasce do prazer de compartilhar algo que faça sentido. E, sobretudo, não existe crise quando a inspiração está conectada ao outro, quando produzir conteúdo é, antes de tudo, prestar um serviço.
Aqui entram três critérios que ajudam a separar excesso de propósito.
O primeiro é a motivação. Quando há vontade real, e não apenas obrigação de calendário, o conteúdo deixa de ser fumaça. Ele carrega intenção, cuidado e responsabilidade. O segundo é a inspiração com destino. Produzir para ajudar alguém a pensar melhor, enxergar um ângulo novo ou simplesmente se sentir acompanhado é radicalmente diferente de produzir para ocupar espaço no feed. O terceiro é a relação com o resultado. Quando likes, alcance e fama não são o objetivo central, ainda que possam vir como consequência, o conteúdo se liberta da ansiedade performática.
Nesse cenário, produzir deixa de ser vaidade e passa a ser generosidade. Um exercício silencioso de utilidade. Publica-se porque faz sentido, não porque o algoritmo exige. E, curiosamente, é aí que prestígio e reputação começam a se construir de forma consistente. Não como meta, mas como efeito colateral de um trabalho.
O contraponto, claro, existe e precisa ser reconhecido. O excesso também cansa. O scroll infinito anestesia. A banalização da opinião transforma tudo em equivalência rasa. Nem todo conteúdo precisa existir. E talvez esse seja o aprendizado mais difícil para quem vive da comunicação. Saber quando falar é tão estratégico quanto saber quando calar.
O desafio, no caso, não é produzir menos ou mais. É produzir melhor. É optar por conteúdos que alimentam, que ficam, que pedem pausa em vez de aceleração. Conteúdos que não sejam apenas mais uma parada instantânea no scroll, mas um pequeno convite à reflexão.
No fim do dia, talvez a pergunta mais honesta não seja “quantas pessoas me viram?”, mas “quem eu ajudei hoje?”. Em um ecossistema saturado, essa resposta vale mais do que qualquer métrica. É o que me move.






























































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