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A era da pós-vergonha

  • há 3 dias
  • 2 min de leitura

A expressão pós-vergonha vem ganhando espaço para descrever um fenômeno cada vez mais visível na sociedade. O conceito nasce de estudos sobre a vergonha como mecanismo de controle social e reputacional. A ideia inquieta. Chegamos a um tempo em que ser desmentido, ridicularizado ou exposto em contradição já não produz, necessariamente, consequências para quem fala ou age.


Essa mudança ajuda a explicar por que tantas declarações que antes poderiam encerrar carreiras hoje parecem fortalecer lideranças. Donald Trump é o exemplo mais conhecido. No conflito com o Irã ele tem se superado no quesito. Já no Brasil, Lula e o clã Bolsonaro também fizeram afirmações amplamente contestadas sem perder o apoio de parcelas expressivas de seus eleitores. Recentemente, a senadora paraguaia Celeste Amarilla provocou indignação internacional ao fazer comentários racistas contra Kylian Mbappé e, mesmo diante da repercussão, manteve sua posição. 


O constrangimento público, ao que tudo indica, perdeu parte de sua capacidade de frear comportamentos.


Mas a pós-vergonha não pertence apenas à política. Ela também está nas salas de reunião, nas ruas e nas redações. Políticos preferem atribuir derrotas eleitorais a fraudes; gestores culpam o mercado e a concorrência por resultados ruins, em vez de admitir decisões equivocadas; e cidadãos sustentam teorias conspiratórias para explicar crises sem qualquer evidência.


O compromisso com os fatos cede espaço ao compromisso com a própria convicção.


Durante muito tempo, a vergonha exerceu um papel relevante na sociedade. Ninguém queria ser conhecido como alguém que mentia, exagerava ou insistia em um erro depois de confrontado pela realidade. A reputação era construída lentamente e podia ser destruída em poucos minutos. Esse temor ajudava a estabelecer limites, mesmo quando não havia qualquer punição legal.


Hoje, a dinâmica parece diferente. A polêmica passou a render mais visibilidade do que prudência. Para muitos, admitir um erro representa perder espaço; insistir nele, ao contrário, reforça a identidade de um grupo e alimenta o engajamento de seguidores.


Essa transformação desafia profundamente a comunicação. Durante décadas, acreditou-se que fatos e evidências seriam suficientes para corrigir desvios de percepção. A realidade tem mostrado que a informação continua indispensável, mas deixou de ser suficiente. A disputa passou a envolver pertencimento e identidade.


No mundo pós-vergonha, confiança passou a ser um ativo ainda mais raro e, justamente por isso, mais valioso. Sua maior característica não é a perda da capacidade de sentir vergonha, mas a perda da capacidade coletiva de exigir coerência. 


E quando isso acontece, a comunicação passa a ser uma das principais ferramentas para reconstruir a credibilidade, fortalecer o diálogo e lembrar que nenhuma sociedade prospera quando as convicções passam a valer mais do que os fatos.

Imagem: Nico Meier | Unsplash

 
 
 

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