Na democracia, ninguém se considera o vilão
Ninguém entra numa discussão acreditando ser o vilão da história. Cada lado costuma enxergar suas próprias razões, seus valores e suas convicções como legítimos. O problema começa quando essa certeza deixa de permitir que o outro também possa ter razões legítimas. Uma opinião diferente já não é recebida como oportunidade de reflexão, mas como provocação, afronta ou ameaça. O outro deixa de ser alguém com quem discordamos e passa a ser alguém que precisamos combater.
Uma das características mais perigosas da polarização é justamente esta: quase todos acreditam estar do lado certo. Há os heróis e os vilões, os bonzinhos e os mauzinhos, os que defendem o bem e os que, supostamente, representam o mal. O problema é que essa lógica não pertence exclusivamente a uma ideologia, a um partido ou a um campo político. Ela é profundamente humana. Quando nossa maneira de enxergar o mundo se confunde com a nossa própria identidade, questionar uma ideia pode ser percebido como questionar quem somos.
A psicologia social há muito estuda esse mecanismo. O viés de confirmação nos leva a procurar informações que reforcem aquilo em que já acreditamos e a desconfiar, minimizar ou rejeitar aquilo que nos contraria. A identidade de grupo torna o processo ainda mais poderoso: tendemos a atribuir melhores intenções aos nossos e piores intenções aos outros. O adversário deixa de ser apenas alguém que pensa diferente. Passa a ser alguém que, na nossa interpretação, ameaça aquilo que consideramos correto. E, quando isso acontece, a conversa perde espaço para o ataque.
Recentemente, depois de publicar um artigo sobre a capacidade da democracia brasileira de produzir o resultado de uma eleição presidencial em poucas horas, recebi de um colega uma resposta carregada de cinismo, que praticamente atravessava um século de história para sustentar sua visão sobre os perigos que ainda nos cercam. O que mais me surpreendeu não foi a discordância. Discordar faz parte. Foi perceber como rapidamente uma reflexão sobre uma conquista institucional podia ser transformada em uma disputa sobre posições que sequer haviam sido defendidas no texto. Fiquei pensando se havia ali um viés provocado pelo título, uma leitura apressada ou simplesmente a necessidade de confirmar uma convicção anterior. Não tenho como saber.
O episódio, porém, me fez pensar em algo muito presente. Isso está acontecendo nas redes sociais, nas mensagens instantâneas, nas conversas entre amigos e dentro das famílias. Demonstramos repulsa por determinados governantes porque não simpatizamos com eles, porque nos frustraram ou porque discordamos profundamente de suas decisões. Mas, algumas vezes, suspendemos o mesmo rigor quando a frustração vem daquele em quem depositamos alguma esperança de mudança. A régua muda conforme o personagem. Esse é um dos sinais de que não estamos apenas discutindo política. Estamos defendendo identidades.
Como sair disso? Não existe uma fórmula. Mas existe uma escolha individual que está ao alcance de cada um: não responder imediatamente quando somos atingidos. Parece pouco, mas não é. A sabedoria pode começar justamente nesse intervalo entre aquilo que nos provoca e aquilo que decidimos devolver. Podemos perguntar se entendemos de fato o que o outro disse, se estamos respondendo ao argumento ou à pessoa, se usaríamos as mesmas palavras caso a opinião viesse de alguém de quem gostamos e se estamos tentando compreender ou apenas vencer.
Democracia não exige que pensemos da mesma maneira. Exige que consigamos conviver com o fato de que não pensamos da mesma maneira. Podemos defender ideias opostas, votar em candidatos diferentes, ter visões distintas sobre o país e até considerar profundamente equivocada a posição do outro. O que não precisamos fazer é retirar dele a dignidade por causa disso.
O verdadeiro teste de maturidade democrática não está apenas em saber escolher nossos representantes, mas em saber conviver com quem escolheu diferente. E o grande desafio deste nosso tempo é recuperar algo que parece elementar, mas que estamos perigosamente esquecendo: ninguém precisa concordar comigo para merecer o meu respeito. O bem-estar começa quando entendemos que o outro também faz parte do todo.

Imagem: Reprodução Rocky III | United Artists




























































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