Eleições. A IA como vetor de mentiras
- Luis Alcubierre

- há 6 horas
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Vivemos uma inflexão democrática. A inteligência artificial, força que transforma mercados, serviços públicos e rotinas, também altera a natureza do debate eleitoral. Não se trata de negar benefícios. Trata-se de reconhecer que a mesma tecnologia que amplia eficiência pode ser usada para fabricar realidades alternativas e manipular percepções.
A IA qualifica estratégias, facilita acesso à informação e pode aproximar representantes e representados. Porém, quando empregada para produzir deepfakes e conteúdos sintéticos hiper-realistas, o impacto ultrapassa o erro pontual e atinge a confiança coletiva no que entendemos como verdadeiro.
Um sinal de alerta vem de pesquisa da University College London (UCL) sobre a capacidade de distinguir fala humana da voz artificial. Em estudo com 529 participantes, a identificação correta ocorreu em 73% dos casos, desempenho que ainda deixa uma parcela relevante de falsificações passar como autênticas, mesmo com preparo prévio. Aqui esse percentual tenderia a ser menor, com o perdão da inferência.
Isso significa que, em ambientes polarizados e emocionais, até pessoas atentas podem ser induzidas ao engano. No Brasil, o avanço é perceptível. Levantamento do Observatório Lupa apontou que conteúdos envolvendo IA cresceram mais de 300% em um ano.
O problema central não é apenas a quantidade de material enganoso, mas a pressão permanente sobre a credibilidade do ecossistema informacional. Quando o falso circula com aparência de verdade, a dúvida deixa de proteger e passa a confundir.
Pesquisadores reforçam essa ideia. Emilio Ferrara, professor na Universidade do Sul da California, tem debatido com frequência a relação dos modelos generativos com a desinformação em escala industrial e os riscos para a democracia. A jornalista investigativa Maria Ressa, Prêmio Nobel da Paz em 2021, alerta que ambientes saturados por falsificações comprometem a própria noção do que pode ser comprovado.
Diante disso, não há solução mágica. Ferramentas tecnológicas ajudam, mas o diferencial competitivo continua humano. Educação midiática, repertório e compromisso com a verificação tornam-se pilares da resiliência democrática.
Checar exige método. Tudo tem início na identificação da fonte, na compreensão do contexto, na comparação de versões e na avaliação de quem se beneficia das narrativas. Em período eleitoral, essa disciplina deixa de ser escolha individual e assume caráter de dever cívico.
A IA seguirá evoluindo e o realismo aumentará. Por essa razão, mais do que ceticismo, precisamos de responsabilidade ativa. A democracia será tão forte quanto a nossa disposição de confirmar antes de acreditar.
Entre a pressa de compartilhar e o cuidado de validar, que prevaleça o segundo. É assim que se protege o voto e se sustenta a confiança pública. Portanto, reforce os cuidados a partir de agora. As raposas já saíram da toca.

Foto: GreensandBlues | Envato





























































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