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A celebridade do abismo

  • 8 de abr.
  • 3 min de leitura

Há crimes que chocam. Outros que, além de chocar, capturam. O caso de Suzane von Richthofen pertence à segunda categoria. Não apenas pela brutalidade do ato, ocorrido em 2002, quando participou do assassinato dos próprios pais, mas pela capacidade rara de permanecer no imaginário coletivo por mais de duas décadas. Em um ambiente de excesso informacional, isso não é trivial. É construção de imagem.

O que deveria ser um percurso de esquecimento, como ocorre com a maioria dos condenados, transforma-se, aqui, em ativo simbólico explorável. Não no sentido positivo, evidentemente, mas como capital de atenção. A recente confirmação de um documentário pela Netflix, com participação direta da própria Suzane, reacende um debate sensível: até onde vai o direito de contar uma história e onde começa o oportunismo de monetizá-la?

O histórico ajuda a entender o fenômeno. O caso já gerou uma cadeia relevante de produtos culturais. Em 2021, os filmes A Menina que Matou os Pais e O Menino que Matou Meus Pais, dirigidos por Maurício Eça e distribuídos pela Galeria Distribuidora, exploraram versões conflitantes do crime. Na sequência, veio A Menina que Matou os Pais: A Confissão, consolidando a trilogia. Mais recentemente, a série Tremembé, produzida pela Amazon MGM Studios em parceria com a Paranoid, incorporou a personagem em um universo maior de crimes de grande repercussão.

Agora, o novo documentário, ainda sem data de estreia, avança um passo: entrega voz direta à protagonista, com compensação financeira relevante e possível influência editorial.

É aqui que a discussão ganha outra dimensão.

O fato dela “enriquecer” de alguma forma com sua história é o que embaralha nossa percepção de justiça. Porque desloca o eixo. A pena, que deveria encerrar o ciclo, passa a coexistir com uma segunda jornada, a da monetização do enredo. E isso cria uma dissonância coletiva. Se a justiça pune, por que o mercado recompensa?

A resposta, ainda que desconfortável, está menos no sistema penal e mais na lógica da atenção. Vivemos a era em que histórias extremas geram engajamento, e engajamento gera valor. Plataformas como a própria Netflix operam sob métricas objetivas: retenção, audiência, conversão. Nesse contexto, não há julgamento moral, há curadoria de interesse.

Suzane, portanto, deixa de ser apenas personagem de um crime e passa a ser um ativo de conteúdo. E aqui reside o ponto mais sensível. Não se trata de absolver ou condenar novamente. Trata-se de compreender como o ecossistema contemporâneo transforma até mesmo tragédias em produtos.

Há, contudo, uma linha fina que merece atenção. Contar histórias é parte da construção social. O jornalismo, o cinema e a literatura sempre fizeram isso. Mas quando o protagonista do crime participa, influencia e potencialmente lucra com o próprio relato, entramos em uma zona perigosa. E cinzenta. Não é mais memória. É reconstrução e reposicionamento.

E talvez seja esse o verdadeiro desconforto coletivo. Não fala apenas de Suzane. Fala de nós. Sobre o tipo de sociedade que consome, compartilha e, em última instância, valida esse tipo de conteúdo.

No fim, a pergunta que permanece não é jurídica. É cultural. Estamos interessados em compreender o fenômeno ou em consumi-lo? Porque, dependendo da resposta, a linha entre oportunidade e oportunismo deixa de ser uma fronteira ética e passa a ser apenas uma questão de mercado.

Quem há de criticar os que afirmam que o mundo de fato virou de ponta cabeça?

Foto: Netflix | Upscale by Inner

 
 
 

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