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A ignorância como traço da idiotice

  • há 7 horas
  • 3 min de leitura

Há uma diferença importante entre não saber e fazer questão de não aprender. A primeira condição é humana. A segunda costuma ser um dos traços mais evidentes da idiotice.

Vivemos uma época em que a informação está disponível em poucos segundos, mas a curiosidade parece cada vez mais rara. Antes de conhecer um fato, muitos preferem formar uma opinião. Antes de pesquisar uma cultura, escolhem ridicularizá-la. Antes de compreender um símbolo, decretam a sua inferioridade.

Foi exatamente essa sensação que tive ao acompanhar a reação de integrantes de um famoso bloco brasileiro de percussão ao ritual da torcida da Noruega durante a Copa do Mundo. Nas arquibancadas, os torcedores noruegueses reproduzem o movimento das remadas dos antigos navegadores vikings, acompanhando o ritmo de um tambor que marca a cadência coletiva, exatamente como consagrou o imaginário da cultura nórdica. 

O Bloco, reconhecido mundialmente por sua excelência percussiva e por sua extraordinária contribuição à cultura brasileira, preferiu ironizar aquela manifestação, como se o tambor fosse uma exclusividade cultural nossa ou como se aquela tradição fosse uma caricatura sem fundamento.

Não é.

Na tradição nórdica, o tambor está associado, no imaginário histórico e cultural, às expedições vikings, marcando a cadência das remadas e simbolizando disciplina, coordenação e força coletiva. A torcida norueguesa transformou essa referência em um ritual de arquibancada, uma maneira criativa de celebrar sua identidade diante do mundo. 

Pode haver debates entre historiadores sobre detalhes dessa representação, mas não há qualquer dúvida de que ela faz parte da cultura escandinava contemporânea. Ignorar isso é um direito. Zombar é outra história.

O curioso é que esse tipo de comportamento costuma aparecer justamente em eventos como esse. Em vez de enxergar uma oportunidade de conhecer outras tradições, muitas pessoas se comportam como fiscais da autenticidade alheia. Tudo o que não se parece conosco passa a ser considerado estranho, inferior ou até ridículo.

Essa é uma das faces mais discretas da ignorância. Não aquela de quem nunca teve acesso ao conhecimento, mas a de quem acredita já saber o suficiente para dispensar qualquer aprendizado.

A imprensa, infelizmente, também cai nessa armadilha. Em grandes competições, multiplica-se a quantidade de comentários apressados, interpretações superficiais e análises feitas sem qualquer preocupação em entender o contexto histórico ou cultural de outros povos. A velocidade da notícia vence a profundidade da informação. E a ignorância passa a circular com aparência de autoridade.

O próprio Bloco é um símbolo da riqueza cultural construída pela mistura de influências africanas, brasileiras e universais. Sua história ensina que a cultura floresce quando diferentes tradições dialogam, não quando competem para decidir quem tem o monopólio de um instrumento, de um ritmo ou de uma manifestação artística.

O tambor pertence à humanidade.

Ele ecoou em aldeias africanas, em cerimônias indígenas, em exércitos romanos, em templos asiáticos, em festas populares brasileiras e também no imaginário das embarcações que cruzavam os mares do Norte. Cada povo encontrou nele um significado próprio. Nenhum anulou o outro.

Tenho certeza de que o verdadeiro problema nunca foi o tambor. Isso tudo soa mais à arrogância de imaginar que conhecemos o mundo apenas porque conhecemos um pequeno pedaço dele. O nosso.

A educação começa quando admitimos que há muito a aprender. O respeito nasce quando entendemos que culturas diferentes não são concorrentes, mas complementares. E a convivência só se torna verdadeiramente civilizada quando substituímos o deboche pela curiosidade, o preconceito pela pesquisa e a certeza pela disposição de ouvir.

No fim das contas, a ignorância não é a ausência de conhecimento. Ela se transforma em idiotice quando deixa de ser uma limitação passageira para se tornar uma convicção. Quem aprende amplia o mundo. Quem ironiza aquilo que desconhece apenas revela o tamanho das próprias limitações.


Foto: Shahin Khalaji

 
 
 

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