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Um escândalo emocional chamado Corinthians

No início de novembro do ano passado, o Corinthians era um número ridículo. Um erro de arredondamento. Zero vírgula zero zero quatro por cento. Uma estatística que não se conta aos filhos nem se confessa aos amigos. Essa era a chance do clube se classificar para a Copa do Brasil de 2025. 


Àquela altura, parecia um paciente na UTI institucional, respirando por aparelhos administrativos para não cair à segunda divisão do Campeonato Brasileiro, tropeçando em si mesmo, atolado em dívidas, desmandos e decisões que fariam corar um manual básico de governança. Qualquer analista sensato decretaria: acabou. Mas o Corinthians nunca foi assunto para gente sensata. Estava na 16ª posição na tabela, venceu nove jogos seguidos e chegou em 7º, classificando-se, contra todos os prognósticos, à Copa do Brasil.


Pouco mais de um ano, o roteiro se revela uma afronta à lógica. No Maracanã, esse palco que já viu impérios ruírem e ilusões se consagrarem, o Corinthians venceu o Vasco por 2 a 1 e ergueu, com naturalidade indecente, sua quarta Copa do Brasil. Um feito que não se explica em PowerPoint, não cabe em planilha e desafia qualquer racionalidade. É a velha mística da camisa, essa entidade invisível que pesa toneladas quando entra em campo. A "peita do Coringão" não se veste, ela incorpora. E cobra. Dos seus, sobretudo. 


A torcida, então, é um capítulo à parte, ou melhor, é o livro inteiro. Ela não acompanha, ela arrasta. Não incentiva, empurra. Está presente quando não há esperança, quando o calendário é uma ameaça e quando o futuro parece um processo judicial sem fim. Em novembro, ela já estava lá. Ontem, também. Porque corintiano não aparece na foto do título. Ele sobrevive ao rascunho do desastre. E talvez seja isso que os outros nunca entendam.


Que outro clube no mundo, com dívidas que dariam um romance russo e com gestões que fariam corar um conselho de administração, conseguiria dois títulos no mesmo ano? Nenhum que tente ser normal. O Corinthians não é um case de eficiência. É um escândalo emocional. Um tapa na cara da previsibilidade. Um lembrete incômodo de que o futebol, de vez em quando, ainda pertence ao imponderável. Como disse uma vez Osmar Santos, "doce mistério esse Corinthians".


O tetracampeonato não é apenas uma taça. É uma provocação histórica. Um aviso ao futebol moderno de que nem tudo se resolve com ordem, método e compliance. Há clubes que ganham porque planejam. O Corinthians, quando resolve ganhar, ganha porque acredita. E faz acreditar. E isso, gostemos ou não, continua sendo um ativo que não se audita.


Que essa mesma grandeza que empurra o Corinthians à glória dentro de campo seja, enfim, canalizada para a moralização, a responsabilidade e a seriedade que o clube precisa, e merece, fora dele. Porque um título não pode e não deve esconder a realidade.



 
 
 

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