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O amor não saiu de cena

  • há 2 dias
  • 2 min de leitura

Há frases que não cabem apenas na música. Elas atravessam o tempo, escapam dos fones de ouvido e se instalam na vida real como pequenos lembretes de quem somos, ou de quem deveríamos ser. Apesar de estarmos sendo cada vez mais orientados à performance, velocidade e à validação, as canções, esse território aparentemente leve e emocional ainda resiste a algumas das verdades mais sólidas sobre o afeto, sobre o encontro e sobre a necessidade humana de pertencer. Não por acaso, tantas letras marcantes falam de amor sem pedir licença. E não se trata só do amor romântico, embora ele esteja lá com sua força inevitável. Trata-se de algo mais estrutural, mais fundacional. Quando alguém escreve que é impossível ser feliz sozinho, ou que o melhor lugar do mundo é dentro de um abraço, não está fazendo poesia gratuita. Está, na prática, traduzindo uma tese sobre a condição humana. Uma tese que, curiosamente, vem sendo negligenciada em ambientes onde a razão, o poder e o controle passaram a ser supervalorizados. Há um movimento silencioso, mas perceptível, de endurecimento das relações. As pessoas querem ganhar discussões, não gerar entendimento. Querem estar certas, não necessariamente conectadas. Isso tem um custo. Não aparece imediatamente nos indicadores, não surge nos relatórios, mas corrói aos poucos a confiança, a colaboração e, no limite, a própria saúde das pessoas. E das empresas. Curiosamente, falar de amor passou a soar quase como um desvio de rota. Eu já ouvi, mais de uma vez, em tom de deboche bem-humorado: “ahhh, como você é romântico… que ingenuidade pensar assim”. Será? Será mesmo ingenuidade sustentar que relações importam? É aqui que essas frases, quase despretensiosas, assumem um papel fundamental. Elas nos lembram do básico. Que amar é também um ato de coragem. Que demonstrar afeto exige mais força do que sustentar uma postura de indiferença. Que ceder, ouvir e acolher não são sinais de fraqueza, mas competências sofisticadas em um mundo que se acostumou a confundir dureza com liderança. Talvez o maior risco que enfrentamos hoje não seja a falta de informação, mas a perda de sensibilidade. E, nesse cenário, desistir de falar sobre amor seria uma espécie de capitulação silenciosa. Porque, no fim do dia, são os vínculos que sustentam tudo o que de fato importa. Negócios, famílias, amizades, reputações. Nada disso prospera sem um mínimo de conexão de verdade. As músicas continuam aí, insistindo. Repetindo, de formas diferentes, aquilo que já sabemos, mas fingimos esquecer. Talvez o papel de quem escreve, de quem comunica, de quem lidera, seja justamente esse. Recolocar essas verdades na mesa, com consistência e sem constrangimento. Não como um discurso ingênuo, mas como um posicionamento claro. No fundo, o que faz o mundo girar não mudou. O que mudou foi a nossa disposição de reconhecer isso em voz alta.


Foto: Aimee Mann no Shaky Knees Music Festival em Atlanta, em 2019 (por Ron Harris / AP)

 
 
 

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