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Quando a imagem silencia o sentir

  • 26 de mar.
  • 2 min de leitura

Em 1988, diante de Jô Soares, um jovem Guilherme Arantes fez uma leitura que soava desalinhada com o entusiasmo da época. No auge do videoclipe, quando a música começava a ser capturada pela imagem, ele trouxe um incômodo elegante e raro. Sua crítica era simples e profunda. Ao atrelar a música a uma narrativa visual pré-definida, reduzia-se o espaço da imaginação. A experiência deixava de ser íntima para se tornar guiada. Em outras palavras, passávamos a ver demais e sentir de menos. O contexto importa. O final dos anos 80 consolidava um novo modelo de consumo cultural, impulsionado pela MTV. A música deixava de ser apenas som para se tornar produto audiovisual, embalado com uma estética que sugeria também como deveria ser percebido. Guilherme não rejeitava o novo. Questionava o custo invisível da inovação. Ao antecipar a padronização da experiência sensível, trouxe uma reflexão que hoje soa atual. Quando a imagem define o que vemos, ela também condiciona o que sentimos. E isso limita a essência da música, que sempre foi múltipla e aberta. Enquanto o mercado celebrava alcance e impacto, ele olhava para a qualidade da conexão. Um pensamento que, em linguagem corporativa, revela visão de longo prazo e leitura além do ciclo imediato. Décadas depois, o cenário se reequilibra. A centralidade da imagem perde força relativa na sonoridade. A escuta volta a ser mais individual, mais livre, menos roteirizada. E aquela fala deixa de parecer resistência para ganhar contorno de lucidez. Fica uma provocação que transcende a música. Tendências não são verdades permanentes. São respostas temporais. O risco não está em aderir a elas, mas em fazê-lo sem reflexão. No fim, a música permanece como território do que não se controla. E talvez seja exatamente por isso que continua relevante. O sentimento que vem dela, portanto, não poderia ser roteirizado.



 
 
 

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