Quando a força fala mais alto
- Luis Alcubierre

- 12 de jan.
- 2 min de leitura
A simples sinalização de uma ação militar dos Estados Unidos em relação à Venezuela já era, por si só, um fato político de alto impacto. Em um mundo hiperconectado, financeiramente interdependente e emocionalmente polarizado, não foi preciso que o primeiro tiro tenha sido disparado para que os efeitos começassem a se espalhar.
É fundamental, antes de qualquer juízo apressado, compreender que ações militares nunca são eventos isolados. Elas são decisões estratégicas que carregam camadas históricas, simbólicas, econômicas e diplomáticas. Reduzi-las a uma lógica simplista de “certo” ou “errado” empobrece o debate e, pior, obscurece os riscos reais que recaem sobre o sistema internacional.
Do ponto de vista geopolítico, a Venezuela não é apenas um país em crise. Ela ocupa uma posição sensível no tabuleiro global: detém grandes reservas energéticas, mantém relações estreitas com potências que disputam influência com Washington e está inserida em uma região historicamente marcada por intervenções externas. Qualquer movimento militar ali reverbera imediatamente em Moscou, Pequim, Bruxelas e em diversas capitais latino-americanas. Não se trata de ideologia, mas de equilíbrio de poder.
Há também o risco da normalização da exceção. Quando uma potência militar decide agir fora de consensos multilaterais robustos, abre-se um precedente perigoso. Outros atores, em outros contextos, podem sentir-se legitimados a fazer o mesmo. O mundo, que já opera no limite de suas instituições de governança global, passa a conviver com uma lógica mais instintiva e menos previsível.
No campo econômico, os impactos tendem a ser imediatos. Tensões militares elevam o preço do risco, pressionam commodities estratégicas, especialmente energia, e afetam cadeias globais de suprimento.
Há ainda o fator humano, frequentemente instrumentalizado nos discursos, mas pouco protegido na prática. Intervenções armadas, mesmo quando justificadas por narrativas de defesa da democracia ou dos direitos humanos, quase sempre agravam crises humanitárias no curto e médio prazo. Fluxos migratórios aumentam, serviços colapsam, e a população civil fica presa entre forças que não controla.
Por fim, talvez o risco mais silencioso seja o da erosão da diplomacia. Quando a linguagem da força se sobrepõe ao diálogo, perde-se espaço para soluções negociadas, graduais e imperfeitas, mas sustentáveis. O mundo não carece de demonstrações de poder. Carece de lideranças capazes de administrar conflitos sem ampliá-los.
A sabedoria está menos em tomar partido e mais em compreender a complexidade. A lucidez está em reconhecer que nenhuma ação militar relevante ocorre sem efeitos colaterais globais. E o verdadeiro equilíbrio reside em insistir que, por mais tentadora que seja a lógica da força, ela quase nunca constrói a paz que promete. Apenas redefine, de forma mais perigosa, o próximo conflito.

Arte: El Confidencial





























































Comentários