O enigma do afeto nos grupos de família
- Luis Alcubierre

- 16 de nov.
- 2 min de leitura
Quem não participa de um grupo familiar ou comunitário em que uma pessoa mais velha nos envia, com disciplina quase ritual, aquelas mensagens de bom dia, imagens de natureza, reflexões espiritualizadas ou pensamentos otimistas sobre a vida? Às vezes passam batido, outras arrancam um sorriso, mas raramente paramos para perguntar o que realmente sustenta esse hábito tão recorrente, esse pequeno enigma cotidiano.
Quando olhamos com mais generosidade, e também com o olhar treinado da Comunicação, percebemos que não se trata de um gesto aleatório. Para muitos idosos, esses envios diários funcionam como um fio de luz que os mantém integrados à dinâmica familiar e da amizade. O WhatsApp tornou-se a praça em que exercem presença, cultivam vínculos e participam da vida dos outros de uma maneira simples e acessível. É comunicação em estado puro: direta, afetiva, carregada de intenção.
Há também algo mais profundo, como a sensação de ainda ocupar um lugar significativo no cotidiano das pessoas que amam. Depois de uma vida inteira de entrega, compromissos e responsabilidades, a maturidade reorganiza a forma de participar do mundo. E compartilhar uma imagem singela, uma frase serena ou um pensamento elevado oferece a eles a impressão sincera de colaborar para o bem-estar do outro. É menos sobre o conteúdo em si e mais sobre o gesto, um sinal de presença que não exige resposta imediata, mas convida ao vínculo.
E existe um componente muitas vezes invisível e que deixa muita gente curiosa. Quem cria essas peças? Deve haver verdadeiros artesãos digitais anônimos que, com ferramentas modestas, bancos de imagens gratuitos e uma sensibilidade particular, dedicam tempo para criar cartões, composições, montagens coloridas e mensagens que circulam por milhares de telefones. Pode faltar refinamento gráfico, mas sobra empenho. E, de algum modo, essas criações caseiras alimentam um circuito de cuidado que sobrevive justamente porque não tem pretensão de perfeição.
No centro de tudo isso está o afeto. Cada bom dia enviado, mesmo com estética improvisada, funciona como um toque no ombro, um lembrete de que alguém continua tentando se manter próximo num mundo que já corre rápido demais. São pequenos sinais de vida que impedem que certos laços se percam no silêncio.
Quando entendemos essa lógica, nossa postura muda. Aquela imagem simples deixa de ser um incômodo e passa a ser gesto. Torna-se uma tentativa sincera de conexão, talvez a mais acessível que aquela pessoa tem naquele momento.
E talvez caiba a nós apenas acolher. Porque, no fim, esse fenômeno revela algo essencial: a mensagem, quando nasce do cuidado, tem força para de alguma forma tocar o coração de quem a recebe, independentemente do estilo, da forma e da plataforma. E é justamente essa força silenciosa que sustenta os vínculos que ainda os protegem do desamparo.






























































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