O diálogo que o clima exige
- Luis Alcubierre

- 11 de nov.
- 2 min de leitura
Não sou especialista em clima. Reconheço isso com franqueza e, justamente por essa razão, escolho falar sobre outra coisa: a comunicação que fazemos, ou deixamos de fazer, em torno dos fatos que respiramos, sentimos e às vezes negamos. Estamos na COP30 Brazil. Ela nos lembra que se trata de uma agenda global e, antes de tudo, humana. Por isso é preciso debatê-la com clareza e ética.
Há uma guerra de narrativas: “mudança climática sim” versus “isso é ciclo natural”. E como toda guerra, gera perdas: de diálogo, de credibilidade, de ação. Negar ou exagerar; culpar ou ignorar, tudo isso enfraquece a conversa.
Sinto porque vivo e observo que algo está diferente. Em São Paulo, por exemplo, as noites têm apresentado temperaturas mínimas próximas ou abaixo dos 15°C em um mês que historicamente essas médias superam os 17°C. No inverno, a cidade enfrentou a menor média de mínimas em 30 anos, próximas aos 12°C. Uma criança pegar influenza A em novembro será obra do acaso? Talvez sim, talvez não, mas o conjunto de variáveis mudou. E mudar é o ponto de partida para uma boa comunicação.
Ao mesmo tempo, há dados que sinalizam avanços. A COP30 chega com novos compromissos em energia limpa e florestas, embora o uso de combustíveis fósseis siga alto. O problema é que o clima não espera a diplomacia. Os extremos se tornam mais frequentes e imprevisíveis. O tornado no Paraná, com ventos acima de 250 km/h, foi o mais devastador da história recente; as chuvas no Rio Grande do Sul no ano passado deixaram marcas. Não é só o calor excessivo. É o frio persistente, os fenômenos que se deslocam e desafiam padrões.
Ainda assim, é preciso cuidado com afirmações absolutas. A boa comunicação começa por reconhecer limites. Nem todo evento extremo pode ser atribuído diretamente à mudança climática, e a ciência séria distingue correlação de causalidade. Há variabilidade natural, complexidade nos ciclos e zonas onde o resfriamento também ocorre. Falar disso com transparência não enfraquece a causa, fortalece a credibilidade de quem quer enfrentá-la.
É nesse ponto que a comunicação assume um papel determinante.
Precisamos de uma linguagem que una, não que afaste. Que traduza dados em entendimento e entendimento em engajamento. Que substitua slogans por explicações e certezas por perguntas. A batalha não é semântica, é moral. Ou falamos de forma honesta sobre o que sentimos, medimos e vemos, ou continuaremos presos à retórica que paralisa.
O desafio é transformar a guerra de versões em um pacto de diálogo. Admitir que algo não está andando naturalmente já é um gesto de responsabilidade. Se as emissões de CO₂ continuam a crescer, ainda que mais lentamente, há um consenso possível: todos ganham com sua redução. E talvez seja esse o ponto de encontro entre ciência, política e humanidade.
Que a COP30 nos inspire menos a discursar e mais a conversar. Porque o clima, como a comunicação, depende de escuta, coerência e boa-fé.






























































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