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O dia em que a infância se despediu

Outro dia, meu filho desceu com um lego debaixo do braço. Como sempre fazia. Disse que ia brincar no salão de jogos do prédio. Eu sorri, como quem vê um ritual conhecido. Poucos minutos depois, ouvi o som do elevador voltando e a porta se abrindo. Ele entrou cabisbaixo, como se tivesse esquecido alguma coisa importante, mas não era uma peça.


Ele se sentou no sofá, olhou para mim e, com uma tristeza que não cabia em seus 12 anos, disse: “Pai, não tem mais graça brincar”. Ficamos em silêncio. Era uma frase simples, mas o peso dela caiu entre nós como um daqueles blocos que, quando desmontam, levam junto a imaginação que os mantinham de pé. Ele chorou, e eu também. Não porque fosse uma tragédia, mas porque ali, naquele instante, um ciclo parecia estar se fechando. A infância se despedia, sem drama, sem aviso, apenas indo embora, como quem entende que é hora.


Disse a ele que crescer dói um pouco mesmo, que a gente sente falta das brincadeiras e da leveza. E que, apesar disso, há muitas alegrias pela frente. Ele concordou, mas eu sabia que estávamos os dois tentando aprender a mesma lição. Há despedidas que não se superam, apenas se guardam.


Pensei depois em quantas casas essa cena já se repetiu. Quantos pais e mães presenciam o mesmo momento, o instante exato em que o brincar deixa de ser urgente. Talvez seja assim que o tempo nos avisa que está passando, não com aniversários, mas com pequenas despedidas.


E naquele dia, no silêncio que ficou entre nós, percebi que a infância dele também era um pouco a minha. E que, ao vê-la partir, cresci de novo.


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Foto: Kamil Kalkan | Unsplash

 
 
 

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