O Brasil que envelhece
- Luis Alcubierre

- 10 de nov.
- 2 min de leitura
O tema escolhido pelo ENEM deste ano foi “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”. Não à toa. Ele convida o país a refletir sobre algo que vai além da biologia. Fala de estrutura, de economia e, sobretudo, de futuro. O país está envelhecendo. E isso, longe de ser uma má notícia, revela o avanço da medicina, da ciência e das condições de vida. A longevidade é uma conquista, mas também traz desafios que precisam ser encarados com maturidade e planejamento.
Segundo o IBGE, a população com 65 anos ou mais cresceu 57% entre 2010 e 2022. Isso significa que ela representa hoje praticamente 11% dos brasileiros. Projeta-se que, até 2070, mais de um terço da população terá 60 anos ou mais. A base da pirâmide etária se estreita e, com mais idosos, surge uma pergunta inevitável: como sustentar o sistema previdenciário em um país em que há cada vez mais aposentados e menos contribuintes?
A resposta não virá apenas do Estado, que já mostra sinais de exaustão fiscal. A previdência pública, sozinha, não suportará o ritmo da longevidade crescente. É provável que o futuro nos traga um novo tipo de desafio: o de pessoas com saúde, energia e vontade de produzir, mas com limitações econômicas para desfrutar dessa vida mais longa. Sabendo disso, os idosos procuram no conhecimento o diferencial para seguir no jogo.
E já que tocamos no tema do ENEM, um dado curioso: as inscrições dos 60+ no exame aumentaram 70% este ano, de acordo com o INEP - Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas. Esse grupo não quer ser um peso para o sistema, quer continuar criando e contribuindo. Mas para isso precisa de oportunidades reais.
É nesse ponto que empresas e gestores têm um papel decisivo. Não basta declarar apreço pela diversidade etária em seus programas internos. É preciso praticá-la. Valorizar profissionais experientes é reconhecer o peso do conhecimento acumulado, da capacidade de análise e da serenidade diante de decisões complexas. Um ambiente de trabalho plural, com jovens e maduros dialogando, é mais rico, mais criativo e mais produtivo.
A tecnologia pode ajudar nesse processo, desde que não replique preconceitos humanos. Por isso, é essencial que os algoritmos de seleção aprendam a ignorar idade, gênero e raça, e que as lideranças confirmem essa mudança na prática.
Ouvi certa vez, não me recordo a fonte, "que o envelhecimento não é uma tragédia, mas um fenômeno previsível, que pode ser administrado com inteligência". Políticas públicas voltadas à economia da longevidade, à atualização profissional contínua e à flexibilização do trabalho na maturidade são caminhos possíveis.
O que precisamos é de um pacto entre gerações, um compromisso em que todos participem da construção de um modelo sustentável, solidário e justo.
O envelhecimento do Brasil é irreversível. Cabe a nós decidir se ele será um fardo ou uma conquista social. A resposta está em reconhecer o valor do tempo, não como peso, mas como experiência.






























































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