O poder não está nem aí para você. E o que fazer com isso?
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Há uma ilusão confortável que atravessa gerações: a de que, em algum nível, o poder olha por nós. Não olha. O poder olha para si mesmo, para a sua manutenção, para a sua expansão, para a sua sobrevivência. Todo o resto é ficção que conforta.
Existe uma ideia recorrente, quase intuitiva, de que, para alguém ganhar, alguém necessariamente precisa perder. A ciência econômica relativiza isso. Jogos de soma zero existem, mas não são regra universal. Em muitos contextos, especialmente em economias complexas, há ganhos mútuos, criação de valor, expansão de oportunidades. Ainda assim, em cenários de crise, de escassez ou de conflito, o comportamento tende a se aproximar perigosamente do modelo de soma zero. E é exatamente nesses momentos que o poder revela sua face mais pragmática, para não dizer indiferente.
Quando olhamos para mais um episódio de tensão no Golfo Pérsico, não é difícil perceber que decisões geopolíticas são tomadas em camadas muito distantes da vida cotidiana. Estratégias são desenhadas, interesses são protegidos, alianças são negociadas. E, no meio disso, o cidadão comum vira variável de ajuste. Não é pessoal. É estrutural.
A história é pródiga em exemplos. Durante a Primeira Guerra Mundial, milhões de pessoas foram enviadas ao front não por escolhas individuais, mas por engrenagens políticas e econômicas que exigiam mobilização total. Na década seguinte, a Grande Depressão mostrou como decisões financeiras concentradas podem devastar a vida de milhões que sequer participaram da construção daquele risco. O padrão se repete: o topo decide, a base absorve.
Na política, o ciclo é igualmente previsível. Em ano eleitoral, o cidadão é ativo estratégico. Sua atenção, sua opinião e, sobretudo, seu voto são disputados com vigor. A linguagem muda, o discurso se adapta, a proximidade é simulada com competência. Mas, passada a eleição, a lógica retorna ao eixo original. A engrenagem já cumpriu sua função. E, para muitos, a sensação é de afastamento, de ausência de representação, de invisibilidade.
Nas organizações, o roteiro não difere tanto. Quando uma empresa precisa se reestruturar, raramente a conta é paga por quem tomou as decisões que levaram ao problema. O custo, em grande parte, recai sobre quem tem menos poder de barganha. É o corte, a redução, a pressão por eficiência. Não se trata de maldade individual, mas de uma lógica sistêmica orientada à sobrevivência do negócio.
Se minha memória televisiva não falha, um personagem do ator Antônio Fagundes disse certa vez que aquele que não come é jantado. É uma leitura dura, quase cínica, mas que captura a essência de muitos ambientes onde o poder está em jogo.
Diante disso, a tentação da vitimização é compreensível. Mas ela é, na prática, pouco produtiva. Porque, se o poder não está nem aí para você, a pergunta que se impõe não é por que ele age assim, mas como você escolhe operar dentro dessa realidade.
E é aqui que o jogo vira.
Existe um outro tipo de poder, menos visível, menos ruidoso, mas profundamente eficaz. Não é o poder de mandar, de impor, de atropelar. É o poder de conduzir a própria trajetória com inteligência estratégica. É o poder de entender o sistema sem se iludir com ele. De jogar o jogo sem perder a consciência de suas regras.
Esse poder se manifesta na forma como você constrói sua reputação, como desenvolve suas competências, como lê contextos, como se posiciona. Ele aparece na disciplina silenciosa de fazer bem feito quando ninguém está olhando. Na capacidade de antecipar movimentos, de proteger seus interesses legítimos, de não terceirizar completamente a responsabilidade pela própria vida.
Não se trata de resignação. Trata-se de lucidez.
O cidadão comum pode ser o elo mais fraco nas grandes estruturas de poder. Mas ele não é irrelevante na gestão da própria existência. Há um espaço de autonomia que não depende de eleições, de guerras, da política ou de decisões corporativas. Esse espaço é pequeno, muitas vezes invisível, mas é real.
E, no fim das contas, é nele que mora a diferença entre ser apenas impactado pelo jogo e aprender, com alguma elegância, a jogá-lo.

Foto: Byrdyak | Envato




























































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