O país dos favores
- 5 de abr.
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Há uma engrenagem que move o Brasil com mais eficiência do que qualquer política pública. Não está nos organogramas, não aparece nos relatórios de governança, mas entrega resultados. Chama-se favor.
Na sua versão mais ingênua, poderia ser apenas capital relacional. O problema começa quando ele deixa de ser exceção e passa a fazer parte do script.
As notícias recentes envolvendo o uso de aeronaves privadas por integrantes de altas esferas de poder recolocam esse tema no centro da conversa. O problema não é o meio de transporte, mas o que ele simboliza. A zona cinzenta onde público e privado se misturam de forma desconfortável.
Há sempre versões, justificativas, enquadramentos técnicos. Mas há, sobretudo, percepção. E percepção, a gente sabe, nunca é neutra. Ela constrói ou corrói confiança.
O Brasil parece operar em um modelo híbrido, formal na superfície, relacional na essência. Temos regras, compliance, controles. Mas também convivemos com uma cultura em que o acesso muitas vezes vale mais do que o processo.
E isso cobra um preço. Não só financeiro, mas reputacional. Quando a sociedade percebe que as regras são flexíveis para alguns e rígidas para outros, o que se perde não é só credibilidade, é a própria ideia de equidade.
O país dos favores não é, necessariamente, o país da ilegalidade. E talvez aí resida seu maior risco. Ele funciona naquilo que pode ser explicado, mas dificilmente justificado.
No fim, o que queremos é um ambiente previsível, baseado em regras, mas o que vemos é uma lógica de atalhos.
Enquanto essa resposta não for clara, o favor continuará sendo, silenciosamente, a política mais eficiente do país.

Foto: Rawpixel | Envato




























































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